PREZADOS AMIGOS,
DEIXO AQUÍ UM CONVITE PARA LEITURA DE UMA PEQUENA COLETÂNEA DE POEMAS ENTITULADA "ESCRITO À MÃO ESQUERDA" PUBLICADA NA REVISTA ELETRÔNICA CRONÓPIOS.
CONVIDO TODOS PARA UMA VISITA NA DIVERSOS-AFINS, EDITADA PELOS AMIGOS FABRÍCIO BRANDÃO E LEILA.
A EDIÇÃO DE COMEMORAÇÃO DO TERCEIRO ANO DE EXISTÊNCIA ENCONTRA-SE IMPERDÍVEL.
UM ABRAÇO PARA TODOS.
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Sábado, 4 de Julho de 2009
CONVITE
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Jorge Elias
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Sábado, 27 de Junho de 2009

Ler a nova poesia, quem é capaz?
Por Cândido Rolim
A crítica sempre se mostrou mais ou menos incapacitada para dar conta do fenômeno poético de seu tempo, principalmente quando desdenhou as obras que se negaram a um esgotamento precoce ou quando fizeram apressadas idealizações. Por outro lado, muitas vezes denunciou equívocos e o sepultamento prematuro de obras que ainda se prestariam a inúmeras ressurreições. Mas que salto qualitativo ou quantitativo foi este que blindou a poesia contemporânea de qualquer avaliação plausível, de um mínimo “diagnóstico por imagem” ou de uma trans-figuração livre e vulgar? Por que se diz que ainda não surgiu uma crítica apta a ler com propriedade a poesia contemporânea? Isso se deve a uma incapacidade de avaliação em si ou uma refratariedade programada dos novos modelos estéticos? E essa nova estética, se existente, mereceria a intervenção de um mediador tão qualificado? Em que medida? Há necessidade, enfim, desse urgente interlocução? Suspenda-se, por enquanto a indagação, sempre recorrente, de se há efetivamente “poesia contemporânea” ou equivalente.
Seria normal destinar o texto poético previamente a determinada faixa de competência analítica? E feito isso, a opacidade desse mesmo texto não inviabilizaria as incursões transcriadoras, diruptivas, corrosivas de um leitor indisciplinado e leigo?
Essas questões surgem a propósito de afirmação recente feita por alguns novos poetas de que não há uma crítica apta a abordar com propriedade e avaliar a poesia que se produz atualmente. Normalmente aponta-se a imperícia da crítica, impregnada de vícios estéticos, para abordar a inabarcável produção contemporânea, desde um prisma desconstrutivo, fragmentário, caótico. Tal observação, quando dirigida a certa crítica acadêmica que ainda pratica dicotomias redutoras, analógicas, ainda nutridas nos moldes modernistas do século passado, tem sua razão.
De fato, apesar da constante recomendação para que se olhe com olhos novos o que surge, as obsoletas ferramentas modernistas são no mínimo inadequadas para dar conta da produção poética atual - mesmo com a ressalva de que crítica alguma deu-se ao trabalho de esgotar as linguagens de seu tempo. No entanto, tal deficiência deve ser vista com cuidado, principalmente levando-se em conta o círculo vicioso da competência poética em que se meteu a poesia de hoje, a qual, desdenhando todas as tentativas de ruptura e julgando já a intransigência e subversão como simples operações fora de foco, parece atravessar o âmbito folhoso e ameno de um terreno conquistado. Ora, na medida em que a própria atividade poética abdicou de aderir a um projeto de vanguarda e de uma prática subversiva, como cobrar da crítica uma leitura fidedigna, pertinente ou equiparável a seu desencanto histórico e sua desvinculação objetiva a um desfecho? Em função disso, a afirmação parece esconder menos um pleito por uma interlocução válida que um propósito velado de auto-preservação.
A denúncia feita pelos poetas cria, de qualquer forma, uma problemática. Mas talvez caia num perigoso jogo de excelência se considerar a nova poesia, dada sua privilegiada carga de informação acadêmica, acessável de forma global, como imune a todo e qualquer espicaçamento crítico e, por extensão, a toda revogação ditada pelos atritos estéticos com outras linguagens e com ela própria. Desconfia-se, por exemplo, que uma ostentação cosmopolita, repetindo o mesmo equívoco humanista do passado, busque imunizar-se não só de uma inevitável leitura contingenciada, como dos precários sismógrafos de um indisciplinado leitor transgressivo e transcriador. E quanta energia não se gasta em esquivar-se de um atrito não-edificante!
Podemos até concordar com o decreto, na medida em que uma poesia contemporânea está ainda sendo feita, não tendo ainda tempo de estabelecer-se como matéria manipulável, em que pese toda “poesia in progress”, através de uma manobra de reflexos, negue-se a uma apreensão exaurível, presente ou futura. Mesmo assim ocorrendo, não seria possível essa poesia lograr aliciar o SEU leitor ou SUA crítica? Uma poesia que só timidamente mostra sua nervura? Vá lá. No entanto, desconfio que melhor faz a crítica em tatear, errar em terreno temporal também instável para a in-formação poética, sobre o que ainda não se deu, evitando sujeitar-se a precipitadas totemizações, até porque, quer queira quer não, ela sempre se sustentou sobre obras relativamente “elaboradas”, tirando delas o seu magro sustento.
Confrontos à parte, cabe lembrar que, se a arte contemporânea não tem lugar nem vez para a crítica de seu tempo, nem se permite um convívio mínimo, para quem afinal é escrita e por que ainda é produzida? O fato de já nascer crítica dispensaria a poesia de um olhar de fora, um ver-ler de qualquer espécie?
Com efeito, essa poesia, que prima pela alta voltagem informacional de seus praticantes, sem perceber parece ressuscitar uma “necessidade de época”, em que pese a arte contemporânea pautar-se na ausência de paradigma e linhas de definição nítida. E se de fato há esse gosto nivelador ou uma total ausência de avaliação, espera-se pelo menos que a poesia desenvolva a capacidade de discrepar de seu entorno e cobrar de si uma radicalidade cada vez mais inventiva. Vale lembrar também que, autônoma ou não, a crítica como discurso é algo que vem posterior à obra poética. Convenhamos, embora não seja ela tributária de todos os equívocos cometidos, muitas vezes ressente-se de obras-referência (esse é seu “papel”?) e sua autonomia não vai ao ponto de justificar o injustificável ou de preencher a lacuna estética que as próprias obras não deram conta de fazê-lo.
Para uma produção poética que já não se arrisca ao erro e ao passo em falso e não mostra fissuras apreciáveis, seria cômodo demais debitar o passar em branco do seu discurso à inaptidão do leitor (e da crítica) para penetrar seu espírito. Garante-se, assim, um transcurso incólume, mesmo com o risco maior de ir “emudecendo em meio à não-diferença” (Adorno). Normal também esquecer que o desafio maior, além do que percorrer um caminho estético sem fissuras e erros é, muitas vezes, pinçar o que há por trás desse relato e desse texto que flui em todos os tempos, aparentemente sem discrepância, muitas vezes sem marcas de contemporaneidade e com a falsa aparência de costume e repetição.
A propósito, em recente entrevista, Wilmar Silva formulou a seguinte pergunta a um poeta contemporâneo: se a poesia é “a liberdade da minha linguagem” por que os poetas escrevem com medo de errar?” A pergunta é pertinente ao que ora se expõe, quando, diante de certa monotonia de sons de uma técnica dominada, o leitor parece mover-se num plano poético sem rebites, saliências ou ruídos de elaboração. E, pior, desautorizado previamente a encontrar “algo mais além” do que dispõem os produtos poéticos cooperativados.
Apesar de todas as chamadas que os críticos literários levaram, quase sempre com acerto, se o comportamento para com estes é o da desautorização pura e simples, imagine o que não se reserva ao leitor não-especializado, imperito, mas capaz muitas vezes de uma compreensão, de uma apreensão formal ou conteudística, uma des-integração poética.
Ora, se uma poesia não for lida (ou sequer repudiada) por sua época, nem se oferece ao pasto de um retardatário olho congestionado de conceitos revogados e nem se submete às suas intrigas, pelo menos para deixar claro seu não-pertencimento a um mundo absoluto, deve, de preferência, mostrar sua quota de subversão, sob pena de, paradoxalmente, destinar-se mais livremente à degradação que a auto-referência induz e, pior, sem tocar sequer a lava do historicismo. Enfim, como costuma acontecer à arte que escolhe seu público, pode caminhar docilmente a mais um “cerimonial vazio do concerto”.
É verdade que toda arte que se preze traz em si uma “negação elaborada”. Mas esse elemento em si não menospreza o acaso, as invasões da diversidade, nem se presta a estabelecer pré-indicações valorativas de quem pode ou não pode usufruir de sua estrutura objetiva e libar suas conseqüências estéticas. A rigor, o produto estético é sem rótulo de indicação.
Convém lembrar, uma das características da poesia de hoje é que ela, atingindo alto grau de lucidez, se permite atestar sua inutilidade, sua indisposição à imortalidade programada, alguma transcendência pré-concebida, a irrelevância histórica a um tempo determinado.
Por outro lado, esses elementos paradoxalmente se perfilam numa angustiante espera por uma crítica que não comparece, paradigmática (por que não?), totalizadora (idem) e, afinal, tanto quanto competente ou mais que as obras em curso. Ocorre que, para o bem e para o mal, nascendo depois das escrituras, à crítica quase sempre restará inviabilizada uma resposta em tempo oportuno.
Por enquanto, mesmo sujeitos a um diagnóstico falho, preferimos acreditar que a uniformidade abstrata e mais ou menos rarefeita da poesia atual deve-se mais a uma abertura franca às múltiplas leituras e interpretações não-autorizadas e seu dinamismo tecnológico (quase uma “tendência”) que à sua predisposição para atender a um “gosto nivelador”, professoral e autoritário. Para uma avaliação minimamente válida, cremos ser necessário pôr de lado os patéticos e inofensivos torneios geracionais em que se adiam questões estéticas objetivas sobre os textos e as debilidades são reciprocamente disfarçadas. Sim, porque à obtusidade dos retardatários em insistirem com clichês poéticos sepultados, corresponde a tática de seus opositores novíssimos em não deixar ver em seu material os sinais de alguma imperícia ou indícios de sutil reverência a um passado esteticamente emoldurável.
Todavia, essa reação, lançada no contrapé da arquejante crítica, trilhando o caminho inverso à histórica ojeriza dos inventores aos clínicos, não é já um sintoma de contemporaneidade e não expõe um grande impasse com que deve lidar a poesia de agora? Calculamos que sim. É possível afirmar que a crítica ainda não “falou” da poesia contemporânea enquanto larva desconforme com os modelos estéticos e culturais ainda vigentes, e como matéria que se nega à própria abordagem prospectiva, mas jamais como invulgar instância formal indescritível. Não como construção que, dada sua rareza, não encontrou ainda instrumento idôneo de leitura. Fosse assim, para ficar num só aspecto, não estaria tão viva a dialogia das traduções e a releitura de poetas exumados.
Por outro lado, é também possível interpretar esse gesto como uma performance de “negação arrojada” (Adorno), se já não fosse esse “um gesto quase da natureza” da arte em geral. Mas...a notoriedade da poesia está menos em alcançar alguma relevância política que em assumir seu fracasso histórico e programático, dando-se ao luxo de, na passagem, descartar qualquer conciliação com a crítica. De qualquer maneira, seria no mínimo estranho que uma poesia se ufane por não ser devidamente lida ou interpretada pelos que lhe são contemporâneos ou se lamente disso.
Ora, ainda que sujeita a leituras estrábicas (e, repetimos, inofensivas) de uma retardatária crítica embaçada por fuliginosos paradigmas modernistas e dos velhos cultores de metáforas, essas são ainda leituras (ou testemunhos de um fazer?), equiparáveis tanto quanto aos visitantes potenciais/virtuais do texto, espalhados pelo futuro. E para aqueles talvez já soe indiferente ou inócua a expulsão ou a barração compulsória na festa do pensamento.
Cândido Rolim nasceu no sul cearense, autor de Exemplos Alados, Pedra Habitada e Fragma. Possui artigos, textos e resenhas na web , em jornais e revistas. E-mail: candidorolim@hotmail.com
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Segunda-feira, 8 de Junho de 2009
Dialética do desenlace

(Eleusa de Morais - tinta acrílica sobre tela)
eleusa9@pop.com.br
Estamos sós.
E a tristeza que invade os espaços íntimos
não permite sobriedade.
Desfazem-se gestos
para evitar a tortura de sentir-se interpretado.
Quando calar-se
é um virar de costas.
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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
Sexta-feira, 29 de Maio de 2009
POLITEÍSMO

Costumam rir dos meus Deuses
Antes que o Céu
se encumbisse do sumiço das estrelas,
o menino desenhou um Sol para cada País.
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Jorge Elias
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Domingo, 24 de Maio de 2009
ITALO CALVINO - parte II

Seis propostas para o milênio
Por Bruno Tolentino
As prefigurações de Italo Calvino para a arte que virá podem ser chaves de uma nova humanidade
Em suas Seis Propostas para o Próximo Milênio – mais exatamente, nas cinco que conseguiu redigir antes de sua morte súbita -, Italo Calvino faz melhor que profetizar: assume e, assim fazendo, define magistralmente o que seja o componente profético de toda grande arte. Recorde-se que os vocábulos vate e vaticínio têm a mesma raiz; observe-se que, conto, romance ou ensaio, o grande prosador italiano manejava as artes da linguagem com absoluta mestria; e constate-se que, nesses textos, zênites de toda uma vida dedicada à reflexão, Calvino é mais que nunca o autor das Cidades Invisíveis. Vale dizer: o que sua argúcia de ensaísta e erudito nos permite entrever de um futuro hipotético, ele o vai tecendo com os fios eminentemente artesanais de um artífice embebido de um passado tão instrutivo quanto promissor.
Aqui é o artista que nos conduz de espanto em maravilhamento, de Ovídio a Lucrécio, das sagas nórdicas ao folclore centro-europeu e, pelas vias mais inesperadas, de Dante e Cavalcanti a Petrarca e Leopardi, e deles até Montale, Wallace Stevens, Emily Dickinson, Jorge Luis Borges... A impressão é a de que nada se perde de uma Via-Láctea tornada a moldura de uma Via Dolorosa em que se movem, como na roca de um tear inefável e incessante, todos os possíveis do espírito humano. Desse movimento de espiral contínua, ascendente, descendente, recorrente, mas sempre fiel a seu roteiro como um pêndulo a seu ritmo, Calvino interroga não as Parcas, mas o destino exemplar da humanidade tal como até hoje o determinou tudo o que a criatura fez de melhor. Isto posto, aponta a destinação, senão provável com toda certeza perfeitamente possível, desse moto-contínuo, desse périplo cuja coerência e unidade seu admirável gênio analítico torna vívido, perceptível e onipresente.
O espírito enquanto experiência acumulada que seu esboço de painel temporal projeta sobre o devir é, de fato, tão nítido e palpável que, em momento algum, ameaça caber no estreito funil das especulações lucubratórias. Longe disso: sua leitura do exercício da inteligência como fio condutor da condição humana toma o ato de criação artística como a tarefa por excelência da espécie; e, aspirando a bem mais que um mero roteiro das peripécias do intelecto, seu painel da aventura cognitiva tece ante o leitor arguto uma teia de significações de tal modo emocionante, que a única reação possível é o júbilo.
Se tanto se fez, e tão bem, que é possível torná-lo evidente e revê-lo à mais casual ou à mais assistemática das leituras, então é certo e seguro que nada se perde ou pode vir a se perder do ímpeto inquiridor e criativo do ser humano, esse enigma em busca de mais e mais veracidade, consciência e claridade. Isso posto, torna-se um prazer conjeturar como uma tão esplêndida bagagem expedida rumo ao futuro vai atravessar-lhe e clarear-lhe as brumas, cumprir sua viagem e, uma vez lá chegando, dar testemunho do que fomos e havemos de ser.
Dos cinco itens assim inventariados e expedidos à alfândega do amanhã – Leveza, Rapidez, Exatidão, Visibilidade e Multiplicidade; a sexta proposta, Consistência, não chegou a ser desenvolvida -, três parecem-me ter assegurados bom trajeto e bom porto. E digo já por que distingo e separo dos outros dois os quesitos de Leveza, Exatidão e Visibilidade, por que razões deixo às Parcas o destino, para mim incerto, da Rapidez e da Multiplicidade, tais como Calvino as lê e propõe.
É que, como as vejo eu, estas últimas são passíveis de confusão; a primeira, essa “rapidez” que ele entende como economia de meios em favor da comunicabilidade do essencial, pode, cá entre nós, facilmente ser tomada por uma receita de atalhos mais ou menos acrobáticos, dado o espírito apressado de uma era que se anuncia enamorada das vertigens súbitas. Não é o que lhes envia, mas temo que possa vir a ser o que efetivamente queiram receber os “amanhãs que cantam” nos Brasis vindouros... Em que pese a nitidez de sua exposição, a virtude da rapidez necessitaria ainda mais talento e mais cuidado na “chegada” do que no ato de embalá-la e enviá-la a um futuro que temo por demais ávido de mediatismo, de “resultados imediatos”. Bem pode ser que a alguns cá do Terceiro Mundo em seu terceiro milênio não fique assim tão absolutamente claro que Calvino não era calvinista...
O mesmo, ou quase, vale por sua apologia da Multiplicidade. Aqui, a bem dizer, o risco de desvio de carga parece menor, pois que Calvino advoga a idéia de romance como uma espécie de mosaico móvel, em lugar da flaubertiana forma precisa (e fechada) de captar e narrar um determinado aspecto, ou instante, do real. Seu modelo da multiplicidade de planos e perspectivas é sobretudo a Recherche de Proust, e até aí vou eu.
Mas começo a hesitar onde sua reflexão passa de uma justíssima avaliação do projeto (necessariamente) inconcluso de Robert Musil, ao elogio do especimen (inevitavelmente) confuso de Carlo Emilio Gadda. Entendo-o, simpatizo mesmo com essa ambição, esse voto de confiança para com o “seu” ofício, mas não me disponho a endossar suas recomendações, e isso em nome de um certo irredutível espírito meu de desconfiada resistência às amplidões “abertas” em matéria de arte.
Nem todos os sertões são tão grandes que acolham veredas seguras, as mais das vezes o diabo da anarquia dança sozinho nos mais arbitrários redemoinhos à beira da estrada... Ou seja: a menos que se proponham os contos de Borges e as parábolas de Kafka como paradigmas de uma “nova ficção”, e até que lá se chegue sem bookprizes, fico com A Montanha Mágica, com Leviathan, com Mrs. Dalloway, com Nostromo, no temor do que possam vir a ser nossos futuros “homens sem qualidades”...
No mais, Calvino ganha de barbada a aposta com o desconhecido. Partindo do que se fez de mais notável no Ocidente, sua lucidez mapeia os vinte e tantos séculos do ilustre passado-presente, e sua paixão conduz o leitor rumo a um amanhã que contenha toda a fertilidade de um acervo excepcional que, além de incomum, ele demonstra ser mais do que suficiente. Quaisquer que possam ser os novos parâmetros, não será possível honestamente ignorar o que Calvino mostra-nos ter sido e seguir sendo o grande, o incontornável inventário do arquiprovado gênio ocidental.
Sob a rubrica Visibilidade, sua ensaística dá-nos talvez a mais sensível e sucinta explicação demonstrativa do que seja – no caso, em Dante – a “alta fantasia”, essa faculdade eminentemente superior do intelecto, a que antes de tudo o define e sem a qual não há como haver plena representação do mundo nem das coisas que o animam e ultrapassam. É a arte da poesia tornada clara equação e jubiloso entendimento. Haveria mais, bem mais a dizer desse quarto capítulo, mas temo que deixar-me alongar nele seria tentar dar a muitos o que é inevitavelmente o alimento de poucos. É ao poeta, e ao poeta especialmente lúcido, que Calvino se dirige nessa incomparável lição de modelagem, de plasticidade, de forma – a forma e sua música sem par e sem paráfrase. Seu louvor da paranomásia, por exemplo, na Enguia de Montale, por si só mereceria um estudo todo seu. Mas, se passo assim batido por onde a mim mais me importaria deter-me, é que urge, em benefício de todos, aqui e agora, refletir na análise propositiva que seu minucioso intelecto coloca sob as égides complementares da Leveza e da Exatidão.
O que ali vai dito vale especialmente para uma cultura em risco de mutação regressiva, como há meio século vem sendo a nossa, esse nosso Brasil em crise de adolescência tardia, o mesmo que Manuel Bandeira, em 1957, já dizia ser “da América infeliz a porção mais doente”. Àquele país, então apenas esboçado, hoje maduro o bastante para extrair seu enxame de vermes da própria polpa apodrecida, vai endereçada a mensagem central da Leveza segundo Calvino, qual seja: “O mito da modernidade é o exato oposto da eternidade do mito. (...) Se eu tivesse que escolher um símbolo votivo para saudar o novo milênio, seria o salto ágil e imprevisto do poeta-filósofo que se eleva acima do peso do mundo, demonstrando que detém o segredo da leveza, enquanto aquela que muitos julgam ser a vitalidade dos tempos, estrepitante e agressiva, pertence ao reino da morte, como um cemitério de automóveis enferrujados”.
E, para encerrar sem meias medidas, last but not least, aqui vai o mais grave: numa língua cada dia mais invertebrada, preguiçosa, distorcida, contaminada de populismos que, mais ou menos ideologicamente herdados dos ingênuos desvarios “independentistas” de 22, se iriam espertamente institucionalizar em benefício de uma claque de viúvas alegres, tão ciosas quão ambiciosas, nesse quadro acabrunhante e perigoso, a lição, a noção calviniana de Exatidão soa e ressoa com um inadiável sentido de urgência. Por exemplo, na incisividade de passagens como a que segue: “Por que a necessidade de defender valores que a muitos parecerão simplesmente óbvios? A linguagem usada de modo aproximativo, casual, descuidado, me causa intolerável repúdio”. Que não lhe haveria de causar a leitura do cá canonizado Macunaíma, por exemplo? Ou, praticamente ao mesmo nível, a leitura de certos jornais, lamentáveis folhas que acabaram devendo tanto àquela “mariologia” libertária que a USP se encarregou de vender a todo um país que jamais a necessitou, sonhou ou quis... Porque a mentira de cátedra continua a reinar e a irradiar seu terrorismo “novologista”, a leitura das propostas de Calvino talvez ensine o caminho da Arca aos raros que não queiram virar rinoceronte pós-moderno, capivara petista, anta versejante, chimpanzé roqueiro, ou o que mais prometa a fervilhante fauna.
Para esses, vestibulandos em risco de se verem envelhecer como animais no “atual” presépio conceitual beletrista, Calvino pode ser um Noé.
Bruno Tolentino
Grande poeta brasileiro
(12.11.1940 - 27.06.2007)
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Segunda-feira, 18 de Maio de 2009
Poema à morte da ingazeira

Morre de pé o verde,
até que a inexorável gravidade
trace seu rumo definitivo:
partir para o esquecimento.
(Verdes versos - 2007)
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Jorge Elias
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Sexta-feira, 15 de Maio de 2009
ITALO CALVINO - parte I

Italo Calvino: Descobridor do fantástico no real
Por Pedro Maciel
Autor de histórias originais reflete sobre as coisas que acontecem no tempo múltiplo, templo plural, tempo de uma ação que acontece no presente, mas que se bifurca entre o passado e o futuro
“Não é verdade que já não me lembro de nada, as lembranças ainda estão lá, escondidas no novelo cinzento do cérebro, no úmido leito de areia que se deposita no fundo da torrente dos pensamentos...” Os pensamentos de Italo Calvino, mergulhados na vivência e saber, nos assombram e demarcam caminhos que iluminam a sabedoria. Calvino traçou muitos caminhos pela vida afora. Um deles é “O Caminho de San Giovanni” (Ed. Cia. das Letras), composto por narrativas escritas entre 1962 e 1977. Calvino narra histórias originais através de fragmentos, lampejos que transitam entre a memória e a reflexão.
“O Caminho de San Giovanni”, que abre o livro, evoca a adolescência passada em San Remo, as divergências entre pai e filho, a natureza bucólica e a paixão pela cidade. “Autobiografia de um espectador” é o escritor descobrindo o cinema, sua adoração pelo imaginário de Hollywood. Calvino ainda revela a confluência do seu mundo com o mundo do circo de Fellini, mundo desenhado a partir do humor poético, crepuscular e angélico.
“Lembranças de uma batalha” narra os tempos de guerrilheiro antifascista na Ligúria. Calvino volta-se no tempo, “perscrutando o fundo do vale da memória”, para recuperar os sons, imagens e palavras que o infernizaram na época da Segunda Guerra. Em “La poubelle agrée” descobrimos o humor de Calvino a partir dos gestos banais, como pôr o lixo fora de casa. Para encerrar, “Do opaco”, um texto poético que tenta desvendar “o lugar geométrico do eu” no mundo, “o eu que só serve para que o mundo receba continuamente notícias da existência do mundo, um engenho de que o mundo dispõe para saber se existe”.
Os exercícios de memória de Calvino não apresentam a verve do ficcionista, do fabulista que se encontra em “Palomar” ou nas “Cidades Invisíveis”, quando o autor dedica-se a renovar a arte literária. Em “O castelo dos destinos cruzados” ou em “Se um viajante numa noite de inverno”, o ficcionista reflete sobre o ato de escrever num mundo já conquistado, “colonizado por palavras”.
Italo Calvino é discípulo espiritual de Jorge Luis Borges. Calvino, ao decifrar Borges, decifra-se como uma esfinge: “Em cada texto, por todos os meios, Borges fala do infinito, do inumerável, do tempo, da eternidade ou da presença simultânea ou da dimensão cíclica dos tempos”. Calvino também reflete sobre as coisas que acontecem no tempo múltiplo, templo plural, tempo de uma ação que acontece no presente, mas que se bifurca entre o passado e o futuro.
As narrativas do autor de “Os amores difíceis” são reinvenções de um aventureiro da literatura. Calvino é autor de idéias, cerebral e livresco. Reinventor de lendas medievais. Toda a sua literatura é uma reescritura (paródia). Adepto da ficção absurdamente elaborada. De estilo imprevisível, alterna humor, erudição, deslumbramento e ironia. É um descobridor do fantástico no real. A ficção de Calvino mapeia a história de humor e amor. Nada que não esteja fora dos interstícios da realidade. Apesar de que toda literatura aspira ao fictício.
Poderíamos dizer, mesmo pensando em Borges, que Calvino é o inventor das narrativas cíclicas, das histórias do espírito. A literatura se resume a algumas histórias recontadas por um mesmo espírito e essas histórias, ao serem relidas, desvendam-se em outras leituras ou em novas histórias.
***
Trecho de “O caminho de San Giovanni”, de Italo Calvino
E assim, mesmo agora, se me perguntam que forma tem o mundo, se perguntam a mim mesmo que mora no interior de mim e guarda a primeira impressão das coisas, tenho de responder que o mundo está disposto sobre uma porção de sacadas que irregularmente se debruçam sobre uma única grande sacada que se abre no vazio do ar, no parapeito que é a breve tira do mar contra o imenso céu, e naquele peitoril ainda se debruça o verdadeiro de mim mesmo no interior de mim, no interior do suposto morador de formas do mundo mais complexas ou mais simples, mas derivadas, todas elas, dessa forma, bem mais complexas e ao mesmo tempo muito mais simples, na medida em que todas estão contidas naqueles desaprumos e declives iniciais ou deles podem ser deduzidas, daquele mundo de linhas quebradas e oblíquas entre as quais o horizonte é a única reta contínua.
***
Trecho final de “As cidades Invisíveis”, de Italo Calvino
O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.
***
Trecho de “Seis propostas para o próximo milênio”, de Italo Calvino
A última grande invenção de um gênero literário a que assistimos foi levada a efeito por um mestre da escrita breve, Jorge Luis Borges, que se inventou a si mesmo como narrador, um ovo de Colombo que lhe permitiu superar o bloqueio que lhe impedia, por volta dos quarenta anos, passar da prosa ensaística à prosa narrativa. A idéia de Borges foi fingir que o livro que desejava escrever já havia sido escrito por um outro, um hipotético autor desconhecido, que escrevia em outra língua e pertencia à outra cultura _ e assim comentar, resumir, resenhar esse livro hipotético. Faz parte do folclore borgiano a história de que seu primeiro e extraordinário conto escrito com essa fórmula, “El acercamiento a Almotásim”, quando apareceu em 1940 na Revista Sur foi realmente tomado como a recensão de um livro de autor indiano. Assim como faz parte dos lugares obrigatórios da fortuna crítica de Borges a observação de que todo texto seu redobra ou multiplica o próprio espaço por meio de outros livros de uma biblioteca imaginária ou real ou de leituras clássicas ou eruditas ou simplesmente inventadas. O que mais interessa ressaltar é maneira como Borges consegue suas aberturas para o infinito sem o menor congestionamento, graças ao mais cristalino, sóbrio e arejado dos estilos; sua maneira de narrar sintética e esquemática que conduz a uma linguagem tão precisa quanto concreta, cuja inventiva se manifesta na variedade dos ritmos, dos movimentos sintáticos, em seus adjetivos sempre inesperados e surpreendentes. Nasce com Borges uma literatura elevada ao quadrado e ao mesmo tempo uma literatura que é como a extração da raiz quadrada de si mesma: uma “literatura potencial”, para usar a terminologia que Será mais tarde aplicada na França, mas cujos prenúncios podem ser encontrados em Ficciones, nas alusões e fórmulas dessa que poderia ter sido a obra de um hipotético autor chamado Herbert Quain.
Ensaio gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no Jornal do Brasil, a 15 de julho de 2000 e recentemente publicado no CRONÓPIOS.
Pedro Maciel é autor do romance A Hora dos Náufragos, Ed. Bertrand Brasil.
E-mail: pedro_maciel@uol.com.br
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Terça-feira, 12 de Maio de 2009
Caro leitor,
A Revista Cultural Diversos Afins, editada pelos poetas Fabrício Brandão e Leila Lopes, está aberta a conhecer novos autores e expressões no vasto terreno da arte e da literatura. Em razão disso, convida a todos que queiram colaborar nas categorias abaixo enumeradas:
- prosa (conto e crônica) e verso
- resenhas de livros e de cinema
- textos sobre teatro
- artistas plásticos e fotógrafos
A Diversos Afins, tem sido uma vitrine para vários artistas que não encontram veículo para apresentação de seu trabalho.
Contato em:www.diversos-afins.blogspot.com
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Sexta-feira, 8 de Maio de 2009
Mãe

Pubis Matris
Concepção
Há algum tempo,
tu me excitaste o ventre,
me beijaste os seios,
mergulhaste em meus cheiros
com tua sanha de homem faminto.
Roçaste teu rosto e teus lábios
ensandecidos, em meu púbis
Deixei tatuadas em tua pele
as frases desconexas dos meus gritos.
E eu te recebi sobre mim
para te dar a essência de meu gozo.
E tu deixaste dentro de mim a casual
essência de nosso futuro.
A meio caminho,
no escuro de minha intimidade,
partes de nós fundiram-se.
Gestação
Há pouco tempo,
chegaste mais tranqüilo
e buscaste como um filho,
o calor de minhas coxas.
Tua mão, agora, sem desejo,
cruzou por meu púbis, só de passagem,
e quedou-se, mansamente, sobre meu ventre.
O parto
Há minuto,
éramos eu e ela que discutíamos o instante.
Eu a convidava, alternando gritos e sussuros,
Sua resposta me chegava como ondas de um frenesi crescente.
Nos momentos de silêncio,
que, pouco a pouco, me pareciam eternos,
eu quedava exausta entre teus braços.
Enquanto isso,
tu oscilavas entre altismo
e perplexidade.
Mas, enfim, tu te mostravas com a lucidez de meu amante.
Existia, sim, uma outra mão, um outro olhar,
a observar este nosso momento.
mas ele soube do sentido de tua presença
e manteve-se a uma distância segura
para dar cabo do meu desespero.
No momento presente,
- Ah, momento eterno!!!
Sopro o suor que me chega da testa
dispo-me das máscaras venezianas
sou fêmea parideira.
-Venha, minha filha sentir a luz !
Sinta já que a verdade é dura,
que se luta pela vida,
sinta o nosso amor.
Ela me pressiona o púbis
como que a abrir uma porta
que há pouco, jamais se abrira.
Olho dentro de mim,
vejo aqueles pequenos olhos
que só entendem da simplicidade da escuridão;
eles estão fechados, voltados para as suas poucas certezas.
Mas o instinto rompe a tênue membrana
e derrama, através de mim, o seu mar de segurança.
Seu corpo se expande como que por milagre, e ocupa
espaços que até há pouco eram só meus...
Pela primeira vez me vejo a empurrá-la para o futuro.
Entendo, então, o sagrado.
Mas esse momento fugaz de consciência
esvai-se com a dor.
Eis-me a sentir a dor do parto,
dor sem volta.
Não seria esse o preço da consciência da dor?
por que esta autocomiseração humana?
falta-me a resignação animal.
Mas esta dor não dá tréguas para reflexões filosóficas.
Concluo que, felizmente, sou um animal com acesso à ciência.
Essa dor chega a ser “ desumana¨.
Vamos, filha, que eu te ajudo.
Parteiro, por favor me ajude!!!
O corpo daquela mão
se aproxima e ela manobra
o ser contorcido em que me transformei.
Relembra-me os fins
com sua voz
pontuada de serenidade.
Agora já não falo,
já não penso,
somente a dor
com algo mais... que se dissolve no ar,
que me esvazia a memória
ao mesmo tempo que vejo
ser esvaziado meu corpo.
Talvez um registro iconográfico possa dizer por mim...
E ela surge tímida,
como uma atriz que olha a vida
por detrás de cortinas semi-abertas.
Teme a estréia.
Mas parte para decifrar a luz...
(Neste momento, o poeta se despe do manto lírico e se cala. Já não pode mais se aventurar
com palavras onde o mistério da vida só se faz claro para uma mulher)
(Verdes Versos )
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Jorge Elias
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7:52 PM
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Domingo, 3 de Maio de 2009
Consciência

Ser a perdição –
lisa – despudorada.
Ter a utilidade da farpa
da aroeira – curar o esquecimento.
O retorcido cipó da ansiedade –
com tua cabeça hasteada a meio-pau.
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Jorge Elias
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6:56 PM
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Segunda-feira, 27 de Abril de 2009
FABRÍCIO CARPINEJAR

Não pretendo saber o que me pertence
para guardar melhor.
Há algo que o tempo não toca.
O tempo não está decidido no rosto,
mas na forma como se escape do tempo.
Quanto maior o desespero em fugir,
maior será a velhice.
(Fabrício Carpinejar em: Como no Céu - Bertrand Brasil 2005)
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10:37 AM
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Terça-feira, 14 de Abril de 2009

Foto: Eloísa Pelegrineti - Bordeaux - 2008
Imagens
(pequenas lembranças para os fóbicos no claustro)
Fotografar a esquina
sem rumo.
O giz entre as unhas
(pó de palavras).
O “Deus me guia”, no casco do barco
emborcado na praia deserta.
O almoço das cracas
no pier abandonado.
Surpreender o raio
almejando a Cruz.
Captar a quintessência
de um amanhecer de lágrimas.
Mostrar ao Mundo
à fonte dos arco-íris.
A serenidade do pescador
reparando a rede.
A perspectiva da mão
que atirou a pedra.
A profanação do túmulo
dos paquidermes.
A delícia da vibração
dos lábios de Milton.
A indecisão da chama
diante do sopro humano.
...
Relíquias do poeta.
Noves-fora [...]
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Jorge Elias
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10:13 PM
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Sexta-feira, 3 de Abril de 2009
TERCETOS III

A controvérsia da distância
A quanto dista
o zelo do cientista
do abuso apaixonado do poeta com a palavra?
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6:45 PM
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Segunda-feira, 30 de Março de 2009
EMILY DICKINSON

Sorte não é chance – é Esforço –
Fortuna cobra a seu gosto
Cada risada –
A Padroeira da Mina
É aquela Moeda antiga
Desprezada –
∞
O Poeta acende Lâmpadas –
Ele próprio – apaga-se –
Os Pavios que inflama –
Se têm Essência
Como os Astros agregam-se –
Uma Lente em cada Época
Disseminando a sua
Circunferência –
∞
Eis Dois Pores-de-Sol – o Dia e eu
Estamos competindo –
Fiz Dois – e fiz várias Estrelas –
E Ele – só fez Um –
O dele é bem maior – Mas como eu
Dizia a uma amiga –
O meu – é mais conveniente
Para levar na Mão –
∞
É mais fácil chorarmos
Os que morreram
Que por falta de pena
É que se foram
A Tragédia já finda
Obtém o aplauso
Que na Tragédia em cena
Pouco tem uso.
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10:48 PM
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Segunda-feira, 23 de Março de 2009
Segunda-feira, 16 de Março de 2009
TERCETOS I
"A MÁSCARA DO OLHO VERDE CABEÇA" (Cerca 1915)
Óleo sobre tela
Amadeo Souza Cardoso (pochoir)
Verdes Versos I
O escrito, o exposto,
essas meias verdes verdades,
já não se escondem atrás de máscara.
(Verdes versos)
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4:55 PM
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Quinta-feira, 5 de Março de 2009
Manto

Vou sair na noite
e me travestir de amenidades.
Desenhar na névoa
elefantes com trombas sonoras,
zebras com listras de estrelas,
casais gozando em seus fuscas falantes,
de faróis de neblina iludindo o passeio dos guaiamus.
Sentarei a meia-distância de lugar algum
e gritarei seu nome em vão.
E então amanhecerá ,
e pedirei desculpas à aurora.
Pois despi a noite de seu manto
para encobrir meus devaneios.
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12:27 AM
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Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009
Um pouco antes

Um pouco antes do desespero
entregarei as cartas;
não estas falsas memórias
principiadas em momentos de luxúria.
Somente a coragem de um moribundo
permite alguma crueza nas letras.
Talvez eu comece a entender Rimbaud
diante de meu cadafalso.
Por enquanto, tudo é entretenimento;
só cuspe e falsidade.
As cores são vivas e fortes
em meu semblante de camaleão.
Ao menos não me persigno;
não faço falsas preces.
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2:47 PM
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Domingo, 8 de Fevereiro de 2009
O LIMITE DA RAZÃO

Os búzios já não despejam ondas,
e eu me despeço.
De resto, somente uma ou outra suposição.
A questão passará a ser simples
quando dissermos: talvez...
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8:54 AM
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Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009
Sobre o mito de Sísifo

A labuta não respeita o portal das casas.
Dentro e fora – rolam-se pedras.
– Avisem-me
quem joga o bilboquê de pedra dos dias.
E segue o homem-bastão
entre romper o barbante
ou deixar que lhe caia sobre a cabeça
o peso da tomada de consciência.
O homem é um ser interrompido.
Seja no curtume das horas
ou nas contas do terço,
ele sempre se agasalha
com a tênue esperança.
“roda peão,
bambeia peão...”
No absurdo de agora
e à espera da vida eterna,
Amém!
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1:43 PM
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Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009
CONVITE

PREZADOS AMIGOS,
DEIXO AQUÍ UM CONVITE PARA LEITURA DE MEU GRITO POR GAZA E HOMENAGEM AO POETA MAHMOUD DARWICH PUBLICADO NAS REVISTAS ELETRÔNICAS CRONÓPIOS E DIVERSOS-AFINS.
http://www.cronopios.com.br/site/default.asp
http://www.diversos-afins.blogspot.com/
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7:52 PM
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Sábado, 10 de Janeiro de 2009
O absurdo em GAZA

Céu de bombas
Por que choras por mim meu pai?
Cumpri com o que me coube
nessa Gaza de feras.
Em cada criança morta, sacrificada,
um objetivo insano.
Despeço-me do dia
sob flashs e bombas.
Uma fome doentia
molhou teu corpo com meu sangue.
Estrelas dos profetas cruzaram os céus
e pulverizaram os créditos de minha infância.
A ambição de poder comeu meu destino.
Com a força, roubaram-me o sorriso.
Meu pai, nem sei perguntar por quê.
Não tive tempo para me nutrir de ódio.
Pensando bem, pai,
que às lágrimas partam.
Transpareças a cor de teu rosto indignado
nas telas indiferentes do Mundo.
Sobretudo creia, pai,
creia no triunfo do olhar de tua filha,
fosco de morte,
voltado para esse lindo céu,
reluzente de bombas,
nessa noite de um domingo de fúria.
07 de Janeiro de 2008
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7:58 AM
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Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008
PS

A última página restará rasgada.
Ficará apenas uma asa,
incompleta, sem seu par.
A outra levo comigo.
Com esta meia página
combino mais.
Deixo a outra
aos que toleraram o enfado.
Meia página, uma asa
parte de todos nós.
Juntem os olhos da criança,
à flor da quaresmeira.
Juntem as páginas que me dei
às suas páginas,
e voem em paz.
(Verdes Versos)
À todos um abraço e meus agradecimentos neste primeiro ano do "Estalo da palavra".
Agradeço o estímulo dos que deixaram seus comentários bem como àqueles que, em silêncio, leram meus poemas e, de alguma forma com eles se identificaram.
Vamos buscar nas crianças e na natureza uma razão, um estímulo, para nos mantermos conscientes e ativos nesse absurdo que é a vida.
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8:16 AM
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Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008
Claro enígma

Cada manhã traz consigo uma nova geografia.
Deve-se, então, ver as nuvens
para entender os dias.
(O estalo da palavra)
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8:25 PM
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Quinta-feira, 27 de Novembro de 2008
Frango com farofa
No fim de semana
estendo o pano xadrez
no céu de pólvora;
arregalo o olho
para entrar o cisco;
uso a cara de bobo
e ignoro o vício;
O pano xadrez – início;
o cisco no olho – chuvisco;
na cara de bobo – o riso.
(O estalo da palavra!)
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10:32 PM
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Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008
Rubem Braga

Rubem Braga morreu às 11h30 da noite de 19 de dezembro de 1990. Estava absolutamente só em seu quarto – como exigira dos amigos e dos médicos que o atenderam. Suicídio? Eutanásia? “Suicídio assistido”, é o eufemismo mais utilizado, nesses casos.
Deixou-nos uma obra maravilhosa, uma prosa poética única, intimista, na qual tratava das pequenas coisas que nos circundam, as quais, cada vez mais, nos passam despercebidas. Uma homenagem ao nosso cronista maior.
Quintana, em seu poema-homenagem à Tolstoi escreveu que “ a morte é uma locomotiva que chega sempre pontualmente na hora incerta”...
Assim não o quis Rubem Braga.
Segue abaixo um trecho de uma de suas crônicas, citado na recente biografia cuidadosamente preparada pelo também capixaba Marco Antônio Carvalho.
Hoje venta noroeste, amanhã é lua cheia. Depois virão outras luas e outros ventos, mas isso também é fútil. Pois um dia as luas podem girar no céu e os ventos rodarão na terra com meiguice ou fúria, e isso não te importará, como, também, tudo o que foi. Por que, então, te afliges, agora? Que a brisa do mar invente espumas, e depois venham as chuvas frias, o sol e depois no céu limpo suba, imensa, a lua – não penses que isto tenha nada a ver contigo. Não existes. Nada tem a ver contigo.
(do livro – Rubem Braga – Um cigano fazendeiro do ar – Ed. Globo)
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9:33 PM
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Quinta-feira, 30 de Outubro de 2008
Ciclos
E esse Sol
forjando o imponderável
na bigorna do horizonte
E essa Lua
intangível
com suas promessas de sonho
E esse momento
em que nos aproximamos das brumas ...
(O Estalo da palavra)
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11:10 AM
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Quarta-feira, 22 de Outubro de 2008

Levem-me as horas
para os caprichos mundanos!
Já destaquei a etiqueta.
Tomei posse do indivíduo.
Será que não vêem em meu
ante-braço o carimbo de “pago”?
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3:27 PM
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Sábado, 11 de Outubro de 2008
Zé das Virgens

Zé das Virgens –
um despirambado!
Sempre com
respingos de aurora
no olhar.
Ao longo dos anos
ninou a menina Maria,
adormecida pelo cheiro da cola
(deu-lhe o nome
de Maria das Nuvens).
Zé das Virgens
desposou Maria das Nuvens,
debaixo de uma marquise,
num dia de tempestade.
Muito, de tudo,
ele ofereceu
para sua amada:
Deu-lhe
às águas do mundo,
às pétalas das rosas,
os sons das ondas,
o ruído das asas dos colibris.
Pediu-lhe apenas
a escuridão de sua boca.
(sumidouro do mundo)
Para onde partiu
deixando de lado
a eternidade.
(Breves palavras)
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Jorge Elias
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8:13 AM
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Quarta-feira, 1 de Outubro de 2008
Carta ao jovem Nietzsche

O fino trato
que despendes com tua escrita
não merece o desfastio
dos ascetas.
Poeta,
mantenha léguas
do itinerário dos justos.
O verso
que te arde as conjuntivas,
que faz suar as mãos sobre a mesa,
desgosta os santos.
Lembre-se que
gostariam de te estirpar
os olhos mas
te presenteiam com um sorriso.
Sempre soubestes
que poderias contar
com teus inimigos
(os bons e justos tudo temem)
Poderá existir alguém
mais fiel que um inimigo?
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10:33 PM
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Terça-feira, 16 de Setembro de 2008
RÉGUA QUEBRADA

Não me importo
em numerar as penas do cisne.
Versejo
com apetite.
Cato palavras de aluvião.
Sou sapo de língua comprida catando mosca.
Insisto na ingenuidade da metamorfose
(só sei transformar sapato em borboleta).
(O Estalo da palavra)
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Jorge Elias
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8:05 PM
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Sexta-feira, 5 de Setembro de 2008
PIRAÇÃO

Eu já lhe disse que
se você sentasse no céu
eu iria ficar o tempo todo empinando papagaio?...
(O estalo da palavra)
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1:54 PM
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Segunda-feira, 25 de Agosto de 2008
Pressagio

Chegará o dia em que de tanta querença, o mar chegará às praias, às portas, às casas... E aqueles que tanto por ele brigaram, não terão êxito em desfazerem-se de tão insistente amante!
(O estalo da palavra)
Kioto
A redoma estilhaçada
faz frágil o ser antropocêntrico.
A névoa, agora, é cinza de morte.
A hora se apresenta túrgida de desassossego.
O suor que nasce e evapora do febril pensante
é quente, como no Holocausto de ontem.
A vidraça,
o vapor,
a névoa,
sobretudo o calor,
fundem o metal encantado de Wall Street,
em pleno Sol de meio-dia.
É o céu um espelho partido,
forjado por todos os alquimistas que acenderam o fogo da ambição.
O girassol torporoso,
refugia-se entre as pétalas
que não tombaram
ao orvalho ácido do alvorecer.
Ele é incapaz de encarar
a verdade deste Sol.
O que dizer dos seres ignotos
que se admiram nos espelhos das nuvens...
Onde está a cuspideira,
para que eu possa comemorar a soberba humana?
Homem,
mosaico de fluidos,
senhor dos pensamentos dúbios e incoerentes,
não tardes esperando que tua racionalidade te dê o norte.
Ouve os ociosos que, perdidos entre estrelas,
antevêem o simples fim.
A rosa oriental
que nasceu aos pés do cogumelo de poeira,
já era rubra, ao brotar.
Hoje,
ganhou um toque tropical,
está mais encarnada,
herança diária
dos inocentes exangues,
que teimam em nascer,
à margem do mundo globalizado.
Os seres débeis já se esvaem
na fumaça que escreve números
em todo o céu.
E o principal protagonista
não lê os escritos das ondas,
que, insistentes,
desistiram de lavar as areias
e passaram a deixar os seus escritos,
nas memórias de uma geração
(Verdes versos)
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3:21 PM
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Quinta-feira, 7 de Agosto de 2008
Circo

Eis aqui minhas duas mãos.
Queres que eu te empurre?
Passa por cima
do ar parado
e repisado pela platéia.
Ignora a apnéia coletiva.
Desaloja o quebranto desses olhos.
É falsa a força que te sustenta.
Essa verdade não resistiria ao primeiro espasmo
da tua carne.
A poeira é a pele da lona
(a tua pele),
despida por todos após o último aplauso.
Vai,
abandona os holofotes!
Vai!
este é o momento.
Não se avexe,
que as bestas despidas
são inofensivas.
(O estalo da palavra)
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Jorge Elias
às
7:06 AM
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Segunda-feira, 28 de Julho de 2008
Iluminuras

I
A vida;
esse diário de olhares.
II
E nós que já não
nos vemos nos olhos.
III.
Mas como perder de ver
esse seu jeito de vestir despindo-se
ilustrando de verde a manhã das decrepitudes.
(O estalo da palavra)
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Jorge Elias
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2:35 PM
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Quarta-feira, 9 de Julho de 2008
Cúmplice

Não trairia
esse dorso
por mais que pudesse
Deixei que o cheiro
perdido em sua nuca
retardasse o amanhecer.
Enquanto dormias
desfiz os gestos
de seus arroubos.
Não trairia
esse gosto
por mais que quisesse.
Já coloquei
todos os parênteses
em nossa existência.
A porta ficou fechada
para a monotonia
da brisa.
O sol aqui
desfiou a esteira sob a areia
para que queimássemos os pés.
Não trairia
esse gozo
por mais que esquecesse
Aprendemos juntos
a revirar as gavetas
e destronar deuses.
A tradição dos dias
tropeçou no tapete
da entrada de casa.
Não trairia
Esse rosto
por mais que envolvesse
Na casa
cada crime
vira papel de parede
Os filhos aprenderam
sobre a mentira
de alguns beijos.
Não desperdiçamos
intenções
no café da manhã.
Não trairia
esse furor
por mais que sofresse
Aprendi
a usar um olho
para revolver o chão.
Testamos a saúde
celebrando
verdades prematuras
Não sobra
espaço entre as mãos
que se apertam
Por essas bandas
a luz não veste
cor de monotonia.
Não trairia
esse momento
por mais que vivesse.
(Para não dizer que não falei...)
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Jorge Elias
às
11:32 AM
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Quinta-feira, 3 de Julho de 2008
Diversos Afins, 22ª Leva - Especial de Aniversário
Prezados amigos, deixo aqui um convite para uma visita à revista eletrônica Diversos Afins, editada por Fabrício Brandão, Neuzamaria Kerner e Leila Lopes. Nesta edição de aniversário fui convidado à participar com um poema. Vale mesmo visitar esse espaço!
A edição de aniversário vem recheada com poemas, crônicas, críticas e ilustrações:
textos:de Lita Passos, Romério Rômulo,Ana Peluso, Sérgio Luyz Rocha, Cássio Amaral, Alba Liberato, Carlos Henrique Leiros, Mariza Lourenço, L. Rafael Nolli, Rodrigo Melo, Affonso Romano de Sant’Anna , João Pedro Roriz, Heitor Brasileiro Filho, André de Leones;
imagens: de Nelson Magalhães Filho, Vera Basile, Diogo Brasileiro, Fao Carreira e vários outros mais!
Um abraço para todos,
Jorge Elias
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Jorge Elias
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5:40 PM
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Domingo, 29 de Junho de 2008
O que se vê
Pela fresta estreita em que me permito ver a vida,
insiste em me turvar a visão
esta névoa contínua das minhas incertezas.
O lugar no horizonte o seu próprio nome diz...
Vejo apenas uma fração do nascer
ou do porvir da existência.
Se claro, vejo pálido; se escuro, aí vejo tudo.
Tão limitada é a consciência dos seus limites
que, como um asno, se permite tampar os olhos
para trilhar seguro seu pedaço na história.
(Verdes Versos - 2003)
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Jorge Elias
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5:21 PM
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Sexta-feira, 30 de Maio de 2008
Lente

Era outono...
Duas meninas
deixaram suas casas para trás,
na lonjura da esquina.
Eram crianças...
No pires dos olhos
ainda não transbordara a mentira;
ela apenas rodopiava...
E por não bastar o milagre
da inocência;
era outono...
(Para não dizer que não falei...)
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Jorge Elias
às
11:55 PM
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Terça-feira, 20 de Maio de 2008
Rotina

Convivia-se com a conformidade
de ter o universo próximo de casa.
O espaço delimitado
pelo absurdo traço da conveniência
era marcado pelas solas dos sapatos.
(que trazia a fotografia do mijo fora da privada)
Para o gozo
O número era par.
De pouco importava a singularidade da morte.
(Para não dizer que não falei...)
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Jorge Elias
às
8:34 PM
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Terça-feira, 6 de Maio de 2008
Artifício poético

Pendurar um cordão de guilhotinas no pescoço.
Sentir um certo distanciamento dos perdulários(...)
que ensaiavam roubar-nos o deslumbramento do olhar.
(Para não dizer que não falei...)
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Jorge Elias
às
11:00 PM
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Quarta-feira, 30 de Abril de 2008
Identidade

Busco um poema
de que quando lido
se perceba nas mãos a densidade.
Que aproveite
O tato refinado dos artelhos,
e a sensibilidade imaginativa dos pentelhos.
Que tenha um visgo,
Que grude por toda a eternidade
as borboletas no céu.
(Verdes versos)
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Jorge Elias
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9:49 PM
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Segunda-feira, 21 de Abril de 2008
Máscara

Delírios postados,
por um cem número de pernas,
partiram levando a missiva
que entitulei-me: deus.
E a palavra estalada,
em permeio a dissonância
da revoada dos pombos,
tripudiava com a insanidade
dos outros deuses.
E eles,
surrupiados do direito uno
e tresloucados
diante da retirada das máscaras,
(entre trejeitos e suspiros)
denunciaram minha loucura.
(Para não dizer que não falei...)
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Jorge Elias
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4:41 PM
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Quarta-feira, 9 de Abril de 2008
Criação

Lavar a calçada,
no alvorecer do dia.
Espalhar os lápis de cera
e dizer ao teu filho:
– Cria asas!
Mas o pontilhado da história
é pragmático e se reapresenta retinto.
A falsa aleatoriedade do traço
traz o conteúdo da sombra.
O ignoto treme pela vida,
sob a dureza do concreto.
(Verdes versos)
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Jorge Elias
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11:21 PM
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Quinta-feira, 3 de Abril de 2008
Cyrano de Bergerac

Admirai-vos de que essa matéria, misturada confusamente, ao sabor do acaso, tenha podido constituir um homem, visto que havia tantas coisas necessárias à constituição de seu ser, mas não sabeis que cem milhões de vezes essa matéria, avançando no sentido de formar um homem, ora deteve-se a formar uma pedra, ora o chumbo, ora o coral, ora uma flor, ora um cometa, pelo excessivo ou demasiado pouco de certas figuras que ocorriam ou não ocorriam nesse processo de formar um homem? Não é nada de espantar que, em meio a essa infinita quantidade de matéria em constante movimento e alteração, tenha havido a criação dos poucos animais, vegetais e minerais que conhecemos; como não é de espantar que em cem lances de dado ocorra uma parelha. É portanto impossível que daquele revolutear não se fizesse alguma coisa, e essa coisa será sempre admirada com espanto por um doidivinas qualquer que ignore quão pouco faltou para que ela não se fizesse. (Voyage dans la lune – Cyrano de Bergerac)
“Se pensarmos que essa peroração em favor de uma verdadeira fraternidade universal foi escrita quase cento e cinqüenta anos antes da Revolução Francesa, veremos como a lentidão da consciência humana em sair de seu parochialism antropocêntrico pode ser anulada em um momento de invenção poética.”
In Ítalo Calvino. Seis propostas para o próximo milênio. Companhia das Letras, 1990. (Lezioni americane – Sei proposte per il prossimo millennio, 1988)
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10:15 PM
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Sábado, 22 de Março de 2008
A realidade de cada um

Desconheço a ordenação dos anjos,
mas sei das cores nas fachadas das casas.
Na foto antiga, as casas já receberam
O insofismável tom trazido pela areia do tempo.
Naqueles olhos ausentes,
que cruzaram desapercebidos
a falsa eternização do momento,
surpreendo o olhar humano.
Desconheço a verdade dos santos,
mas tenho aprendido sobre a mutilação do desejo.
(Verdes Versos)
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7:36 PM
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Quinta-feira, 13 de Março de 2008
Raízes

Era quase ódio
entornado
naquele olhar
lento. Lento
como morrer de câncer.
É que definharam os dias;
e a vida
não passou de provocativas raízes
que se alimentavam de culpa.
O que brotou,
brotou para dentro.
(Verdes Versos)
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12:02 AM
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Domingo, 2 de Março de 2008
Beijo

Quero comer a tua boca,
para misturar nossas palavras.
Quem sabe assim,
com as frases embaralhadas,
voltemos a criar caminhos.
(Verdes Versos)
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8:04 PM
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Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2008
Fogo baixo

Eu já te disse da espera?
É como pescar traíra:
arma-se a vara na véspera.
Não se tem a consciência
de que o que vem é o que
resolvemos chamar de futuro.
Mas o quão irrelevante
é para o relógio astral
um dia que segue outro.
O importante é o prazer da espera,
a transformação do tempo
na demora que relativiza a vida.
A espera permite fixar o momento;
sobra tempo para se enfeitar com o luar.
O fim passa a ser justificável,
E, quando ele chega,
eis que nos encontra já entranhados
com o cheiro da partida.
(Verdes versos)
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10:41 PM
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Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2008
Poetas – Rita Brennand
Vários poetas nos dizem muito.
Alguns deles são conhecidos de todos, outros de muitos e a grande maioria de muito poucos.
Mesmo aqueles, já nossos velhos conhecidos, possuem inúmeros poemas por nós desconhecidos, não lembrados – ou simplesmente não lidos no dia oportuno para sua leitura.
Resolvi então, iniciar a postagem de poemas que tem me acompanhado ao longo dos anos.
Inicio com Rita Brennand, artista plástica e poetiza, que com seus 80 anos muito me emocionou. Seu único livro, Objetos da Terra, editado pelo poeta e contista Miguel Marvilla em 2001, permanece ainda inédito. 
Criação
Estava tão conivente com o cubo
que me encubei numa tarde molhada.
Encubada, teria mais tempo para mim.
Já não cabia a idéia solta, descentrada.
Previ a cabeça enquadrada.
Liguei com o olhar os pontos dos cantos
com linhas retas raciocinadas.
Teci por horas a fio,
e vi-me de cubos ao cubo cercada.
Até que, em negro ponto, senti-me.
Sou energia contida, concentrada.
Estou à espera do big-bang.
Para não morrer
Para não morrer,
eu me pari como fazem as vacas
em qualquer campo.
Era de noite, de céu branco de via-láctea,
era de noite, de luz.
Dançava no pasto os vaga-lumes.
Eu me pari ao som do cria-criar
dos grilos.
Me parindo,
eu vim a tona,
me lambendo,
me respirando,
me cri-criando!
Era de noite.
Para não morrer,
eu me pari.
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9:44 PM
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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2008
14 de Fevereiro, blogagem coletiva contra a pedofilia

Coito
Seu moço,
qual é mesmo seu nome?
Tá, tá bom!
(alguém entrou em meu beijo)
Essa vida de becos escuros,
bueiros fedorentos,
é uma merda,sabe?!
(alguém rasgou meus peitos)
Abro as pernas
pra ter o que comer.
Tô viciada, mas
tenho minha dignidade...
(enfiou em minhas coxas)
Te chamar de meu amor?!
Vai meu amor!
Dizer que sou sua puta?
Enfia na sua putinha,
Assim... assim...
Enfia nessa merda
de vida dessa puta!
Seu nome é Wanderley?!
Wanderley, deixa eu morrer Wanderley!
(Para não dizer que não falei...)
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11:11 PM
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Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008
Lavrar a carne

Desacato curvas
às expensas da vereda de teus olhos.
Bolino esse olho d´agua
bebericando-te pelas margens.
Brinco de adivinhar desvios
enquanto procuro à nascente de tudo.
Não me agrada a mesmice
de seguir margeando o leito.
Prefiro ir redescobrindo atalhos...
Sou grilheiro,
gosto de tomar posse do que há de devoluto.
Por onde sigo,
sinto o crepitar dos seixos
e o tilintar dos ossos.
Marco com saliva meus passos.
Comungo com a cuia das mãos os teus cristais.
Ah, esse calor calcitrante...
Que venha a tempestade!
Trisca relâmpago!
Range bambual!
Gosto assim! [...]
Que desçam as águas
comendo essas margens ressequidas.
Que estremeça a terra
com tuas palavras distorcidas.
Quero essas várzeas alagadas;
esse chão purificado!
Largar-me como um ilhéu
sobre esse promontório
a apreciar a descida das águas...
E depois... Só encontrar recantos ...
(Verdes Versos)
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8:46 PM
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Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2008
FRIDA

Tela
A vagina
ferida
de Frida.
As raízes
expostas
da vida.
Os soluços
perdidos
no escuro.
O fedor
do mijo
no muro.
As costas
viradas
para o Futuro.
O mergulho
no mijo
no escuro.
O fedor
das raízes
da vida.
As vaginas
viradas
para o futuro.
Os soluços
expostos
de Frida.
(que chora)
Verdes Versos
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7:33 PM
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Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2008
Haveria ainda tempo?
Hoje resolvi voltar ao ano de 2007 e resgatar um texto que escrevi no dia 23 de dezembro. Podia ter publicado antes, mas ele ficaria esquecido dentre tantas mensagens veiculadas nos Blogs pelos quais todos nós passeamos.
O poeta ... ou melhor, o homem, resolveu despedir-se da poesia e ir encontrar-se com Drummond, na fila do feijão, para tomar uma ducha fria de realidade...
No caminho Sérgio Buarque de Hollanda lhe sussurrou: “ O homem cordial morreu...”
Ressoava, em seus ouvidos, o estribilho: “Noite feliz, noite feliz ...” convidando-o à ceia de Natal.
Mas, pode-se dizer tudo de um poeta, menos de um suposto déficit de memória.
Não! Seria um despropósito ficar garimpando palavras, tendo nos olhos, refletidas: panelas vazias, mãos vazias – vidas definitivamente vazias.
Resolveu então embriagar-se para desfazer-se da realidade.
A certa altura fez um brinde:
– Um brin...de
Um brinde ao homem que vive desfiando seu rosário de insensatez!
Viu-se aí diante de um paradoxo – o Homem. Tão belo ser (estava prestes a se transformar em ferrenho defensor do niilismo), fruto do esmero da evolução, perpetrando a desgraça em um mundo maravilhoso.
Reparou então que, por instante (enquanto não elaborava uma forma mais objetiva de se portar diante da complexidade da vida), cabia-lhe a atitude do verso.
A seu modo então, rabiscou o seguinte verso:
Haveria ainda tempo?
O que o pesadelo
tamborilou no ressonar do Deus,
não foi o bastante;
ele tinha a crença na luz,
que tudo cura.
Toda perplexidade
ficou esquecida
nas curvas dessas horas redondas.
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9:21 PM
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Domingo, 13 de Janeiro de 2008
SOBRE O QUE SE ESPERA...

Do Poema
Tudo se espera do poema.
Que seja o contraponto da realidade,
o remanso para o repouso do herege,
o inferno permitido para as paixões contidas.
No poema, o que se procura é o ar diferente
que se vai buscar no expirar delirante de um poeta.
Como se o poeta fosse só delírio...
O poema se fez da vida do poeta;
é ele que o espera.
Do Poeta
Nada mais que a diferença.
O ser quase divino que veio ao mundo
tocado pelos deuses.
O que não se percebe, ou pelo menos não
se quer perceber, é que ele só foi tocado pela
contradição humana.
Para quem muito espera do poeta-homem, vale o
conselho:
atenha-se apenas aos seus versos.
Ele é apenas o exemplo típico
da máxima de Nietzsche:
“A arte existe para que o homem não morra da
verdade”.
O que ele faz é apenas acreditar ser um poeta.
O que se deve esperar,
é que essa sua verdade realmente diga algo.
Do encontro entre o Poeta e o Poema
Que da simplicidade do artesão
resulte a palavra-arte.
E esta deixe para trás o homem
e siga sua trilha para a eternidade.
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8:32 PM
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Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008
01 de janeiro de 2008

Após o pão e circo,
sigo em busca da ciência de desinventar.
No vazio do salão amanhecido
ainda ressoam os ecos das champanhes,
os alaridos esperançosos,
os sussurros de cumplicidade.
De sólido,
ficaram os confetes e serpentinas,
que nada entendem da solidão.
(Para não dizer que não falei...)
Recomeço,
e essa sombra de hoje
nada diz do homem que fui
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8:33 AM
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Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2007
NATAL - UMA PAUSA PARA REFLETIR SOBRE NOVOS CAMINHOS

Querença
Perdi-me no deserto do vocabular.
Aonde vão dar estas setas brancas,
que as garças trazem todas as tardes?
Vou seguir o sopro das asas,
quem sabe encontre um recado de uma borboleta...
Sigo adiante,
afundando pegadas, nas folhas vazias de palavras.
Vem chegando a noite,
de ventos a poetar parênteses...
Deixo a estrela da sorte derramar-se sem um pedido;
se estivesse atento, lhe pediria um verso.
Alvorece, nas costas da noite.
O galo, na torre da igreja,
confunde o sul com o norte,
mas adivinha os meus pensamentos.
A casa do joão-de-barro
faz pender o braço direito do Cristo no cruzeiro,
ele aponta o chão onde eu sempre estive.
Chão de pedra...,
a mesma pedra dos dias,
que, sorrateira, me tampou os poros que perspiravam
[o sal criativo.
Sento-me no banco da praça,
e calço os meus sapatos qual Curupira,
quero que os olhos dos pés me guiem.
Vou insistir em inventar caminhos.
A boca aponta o sentido,
os pés, o instinto (o ido e lido).
Tropeço em buracos
nos ladrilhos verdes de história.
Rastelo o orvalho com os dedos
e o espalho na boca
para umedecer a palavra.
Apesar de lidas e relidas,
as brumas sabem dizer de amenidades.
Esfrego em minhas mãos um punhado de terra.
Terra de cheiros complexos:
Sedimento de pétalas, mijo,
Estrume do gado que pastou tranqüilo na madrugada.
Pegadas dos homens,
Que, através dos séculos,
Se faziam pesadas ao chegarem ao adro,
E partiam confiantes, com a bênção do DIVINO.
Por detrás da janela de um dos casebres geminados,
(aquele pintado com heras, entre o azul e o rosa,
marcialmente enfileirados em torno da Matriz),
um olhar assombrado
reflete o calor que chega do leste.
É um menino alado
baforando sonhos úmidos na vidraça.
Roubo daqueles olhos o que já foi meu;
só assim abro o portal
para o caminho serpenteado das palavras.
Lavras Novas, Minas Gerais
(Verdes Versos)
Para aqueles que, no curto espaço de tempo da criação deste Blog, estiveram presente com seu comentário e, principalmente, com seu olhar, um FELIZ NATAL e um ANO NOVO pleno de SAÚDE e POESIA.
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11:38 PM
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Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2007
Ranhuras

Situo meus devaneios
entre as pregas das mãos;
onde o sumo do limão
deixou marcado meio-dia.
(Para não dizer que não falei...)
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10:20 AM
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Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2007
Por que as mariposas buscam insones?

Já os olhos dos homens seguem calados.
Perdidos de tantas vidas,
em seu longo jejum de atitudes
imersos em suas existências omissas.
Parasitas de sóis e estrelas
vidro fosco entre o luar e a razão.
A indiferença a essa luz que os perpassa
prenuncia o ser cego,
inclinado a parecer correto,
desterrado,
que se deixou na terra
a invejar os colibris.
Por que as mariposas buscam insones
o brilho no olhar da criança?
Morte às mariposas!!!?
Morte às crianças!???
Roga o olhar do homem em lágrimas,
o fim da poesia.
(Verdes Versos)
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5:15 PM
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Sábado, 8 de Dezembro de 2007
A árvore genealógica
Enterrou seu filho, sua mãe e seu marido, entrou em casa e trancou a vida do lado de fora. Colocou o insulfilm mais escuro do mercado em suas janelas e fechou-as.
O barulho das ondas, anunciando o incansável ciclo das marés, não penetrava aquele esquife, elas não podiam rivalizar com sua sede de passado.
Na árvore genealógica de metal colocou as fotos de seus homens.
_ Quem visitasse aquela casa poderia entendê-la através daquela árvore.
Sentou-se em sua cadeira e passou a cultivar sua árvore com a energia de sua saudade. Em três níveis daquele tronco metálico saiam galhos aonde pendiam as cabeças dos homens perdidos.
O primeiro galho trazia a imagem de seu filho primogênito, aquele que ela já havia deixado para trás, no esquecimento de seu passado de menina e, que ao saber de sua existência, veio buscá-la para lhe presentear com sua morte. A segunda imagem, a do filho do meio; aquele que ansiava por ser amado, mas que foi preterido pelo homem que ocupava também um lugar naquele galho. O terceiro e último homem daquele galho, seu marido em foto ainda jovem, sempre com aquele belo sorriso galanteador, representava a esperança de uma vida nova para aquela jovem operária, mãe de dois filhos, perdida em meio ao preconceito naquela São Paulo do final dos anos 50. Com ele construiu enfim sua vida, uma família, e deixou para trás, pendurados naqueles primeiros galhos suas primeiras imagens, para quem sabe, no futuro-agora poder olhá-las com ar de sofrimento. Seguiu então seu caminho e novos galhos surgiram em sua árvore que, como ela, também envelhecia.
Naqueles dois galhos, os dois homens de sua vida. Não que os demais não fossem importantes, prova era que pendiam nos galhos de sua existência. Mas para esses, tinha programado, mesmo que de forma inconsciente, algo especial e definitivo: eles seriam os alicerces para sua tranqüilidade. Mas quem pensa a vida assim, de forma tão inocente, vê a verdade como tragédia.
E foi assim que ela teve de colocar mais uma vez a foto de seu homem-marido naquela árvore... No dia em que eles comemoravam mais um ano de cumplicidade, ele calmamente, com aquele velho ar de quem está sem saber que está, fez a barba, sorriu e partiu para o fim absoluto nos braços de seu único filho.
Eis que surge então o último personagem de sua genealogia, o filho ambicionado, idealizado, sua semente definitiva. Mas aquele fruto não pôde ficar assim pendendo naquele galho a mercê de seus suspiros; como todo fruto, esse também partiu para buscar outras terras. Surgiu assim o último grande galho de sua árvore, forte, capaz de suportar o peso de sua maior perda.
A foto daquele filho colocada assim, como se reinando, acima de todas as outras, é de um valor simbólico único, diria até psicanalítico; quantas mães não construiriam assim suas árvores, mas não ousaram fazê-lo?
Fica ela ali sentada, passando os dias a admirar retratos. Não importa que alguns daqueles homens, ali expostos, ainda estejam vivos, não importa... Afinal, eles não são mais o ideal desejado, o ideal esta ali, exposto, na sua árvore de retratos.
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12:06 AM
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Domingo, 2 de Dezembro de 2007
Mármore

Não deixe que se esgotem as dúvidas.
A pretensão da certeza endireita;
tira a beleza de ser torto.
(Verdes Versos)
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Domingo, 25 de Novembro de 2007
Singular

No derradeiro momento,
quando da indefinição do último gesto,
o velho poeta releu seus versos.
Compreendeu então
Que careceu de deslumbramento.
Não deixou no leito das páginas
palavras não ditas;
nem ao menos rascunhos de alucinações.
Mas,
no perene instante
em que se lhe cerravam as pálpebras,
delimitou-se um horizonte
entrecortado por uma
trilha de pedras marroadas.
Margeava o descaminho
um sem fim de olhares desinteressados.
Disse então o poeta:
– Tenho certo...
Senti adiante.
Ficará de mim... o olhar.
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2:51 PM
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Sábado, 17 de Novembro de 2007
O poema começa assim

Emprenhar-se de miudezas;
deixando as mãos rendidas aos gestos costumeiros.
E quando a luz se aperceber desmembrada
pelo estalo da palavra,
jogar-se nos trilhos
para salvar a flor.
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10:25 AM
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Terça-feira, 13 de Novembro de 2007
Decreto

(ler tomando água de coco à beira mar)
Atenção!
Está suspensa a transitoriedade das insignificâncias.
Não é permitida a inspirabilidade do óbvio.
É mandatório o afogamento das circunstâncias.
O status quo deverá ser limpo com papel higiênico.
Será suprimido do vocabulário o beijo sem língua.
No cardápio das quartas-feiras o prato principal será o ócio.
Cada bocejo deverá ser celebrado como profecia.
Ao homem, que não se lhe falte ovos fritos com torresmo, chicletes e água fresca.
Que todos os reflexos sejam queimados nas piras da reflexão.
Para cada ser humano, um momento lento de aurora.
(inédito)
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Sexta-feira, 9 de Novembro de 2007
O verde psicografado
Certa vez,
psicografei um beija-flor morto
na morna manhã da sensatez.
Ele me confirmou
que a turba renovará o erro de sempre.
– O desespero do luar está em teus olhos, disse-me ele.
Diz-me, rapaz,
és capaz de ver
quantas perspectivas na falsa inércia de um tronco?...
Acreditas mesmo
que um coração pode ser o centro do Universo?...
(Verdes Versos)
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Sábado, 3 de Novembro de 2007
Ideal
Abriu portas no labirinto dos séculos
e chegou ao ponto de partida.
Tinha dado a volta ao mundo
brincando de cabra-cega.
Adiante, somente a porta verde
emperrada pela ferrugem dos livros.
Usou do rastro da lesma
para azeitar a fechadura.
Lambeu os dedos até ficarem verdes
e persignou-se pela última vez.
Desarmou o trinco com uma cusparada certeira,
e foi sentar-se sobre o relógio de sol
para enganar o tempo.
Agora, era só esperar as borboletas...
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Os cachos da borboleta

A lagarta tem o olhar impregnado de terra,
não importa em que sentido olhe.
Para a lagarta, uma porta é uma porta,
uma folha é uma folha,
uma formiga é uma formiga.
Ela se basta; e passa a vida empanturrando-se com suas certezas.
Ensimesmada, não vê sentido no falso silêncio da crisálida.
_ A porta está amarela !
Uma porta, fenestras, claridade...
Não é isso que vê aquela borboletinha de cachos dourados...
Ela surpreendeu o dia com sua visão multifacetada.
Sabe olhar com a imaginação;
Vislumbra o vôo sob o sol da manhã.
E quando chega a noite,
ela recosta-se em minhas cerdas
e sussurra manhosa:
_ Pai, meus olhos estão encharcados de sono ...
Pode dormir minha filha,
que à noite é das mariposas.
Quem sabe um dia você também perambule pela noite...
Afinal de contas,
borboletas e mariposas são irmanadas no olhar...
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5:09 PM
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Quarta-feira, 31 de Outubro de 2007
Cumuruxatiba

Face à la mer
Parto para cruzar o Atlântico.
Asas de metal me levam com os meus sonhos.
Duas libélulas enamoradas,
em seu vôo de cópula,
ensaiam um ménage à trois
com as asas do pássaro metálico.
De nada adianta pisar as nuvens,
pois me foge a cauda do Sol,
que dobra em definitivo a esquina do Ocidente.
De resto,
só o sono,
fuga reconciliatória do ser imperfeito.
Despistamos o Sol!
Ah! Ele desprezou os meus anos de “pique-pega”...
Foi só correr para o Oriente, e pronto...
Mas o espanto foi só meu,
porque ele passou alheio
às regras de meu jogo.
Segue o dia,
e as águas mediterrâneas
azulam meu eu verde.
Grãos de areia, fundidos em pedras,
com a liga secular do sangue humano,
como que a dizer:
– Não divague, homem,
esqueça o manto das ondas
que disfarçam os naufrágios.
(Verdes Versos)
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Jorge Elias
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Domingo, 28 de Outubro de 2007
Viajante lunar
Hoje vi a Lua boiando tranqüila, nas águas de uma lagoa.
Mergulhei os pés na Lua.
Várias Luas surgiram, em torno de mim,
foram crescendo, crescendo...
Fiquei cercado pelo luar.
(Verdes Versos)
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Jorge Elias
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